PÚBLICO (14/11/2025)
Em terras sírias confiscadas, Israel construiu colonatos, bases militares e adegas. O vinho produzido nos territórios ocupados é exportado para a Europa, e encontra-se à venda em Portugal.
O autocarro que liga a Galileia aos Montes Golã ocupados circula quase vazio. Os poucos passageiros são quase todos soldados israelitas. Entram fardados e armados e sentam-se com as metralhadoras ao colo ou pousam-nas no assento ao lado.
Enquanto viajamos neste autocarro onde as armas ocupam os lugares dos passageiros, o único sinal de que atravessámos a Linha Verde – a fronteira reconhecida internacionalmente que separa a Galileia dos territórios sírios ocupados por Israel – é a paisagem, cada vez mais montanhosa, vazia e militarizada.
Da janela, avistam-se as colinas áridas de basalto do sudoeste da Síria, mas na estrada, a sinalização está em hebraico. À medida que o autocarro segue para norte, os soldados vão saindo nas paragens junto às bases militares estabelecidas no território ocupado – algumas construídas sobre as ruínas de aldeias sírias destruídas pelo exército israelita.
Durante a Guerra de Seis Dias, em 1967, Israel conquistou os Montes Golã à Síria. Cerca de 95% da população síria foi expulsa pelas forças israelitas ou fugiu. Israel decretou o território ocupado uma zona militar fechada e proibiu os deslocados de regressarem às suas casas. Apenas cerca de sete mil residentes sírios – quase todos da minoria drusa – puderam ficar em quatro aldeias no norte dos Montes Golã. Desde então, foram construídos 35 colonatos israelitas na região.
Hoje, cerca de 31 mil colonos vivem nos territórios apropriados, em violação da lei internacional. O ano passado, Israel anunciou planos de duplicar a população de colonos. Mas ao contrário de Gaza e da Cisjordânia, os outros territórios ocupados por Israel em 1967, os Montes Golã recebem pouca atenção internacional.
Passando por bases militares, avisos de campos minados e vinhas plantadas por colonos para a indústria vinícola israelita, chegamos finalmente às aldeias sírias que não foram apagadas do mapa em 1967. O destino é Majdal Shams, a maior das quatro comunidades sírias que restam nos territórios ocupados por Israel.
“Fomos esquecidos”
Situada no sopé do Monte Hermon, conhecido em árabe como Jabal al-Shaikh, que no inverno se cobre de neve e se transforma em estância de ski, Majdal Shams é a comunidade mais a norte dos Montes Golã, e a mais próxima do território controlado pela Síria.
O poeta e professor Yasser Khanjer vive junto da vedação que separa os Golã ocupados do resto da Síria. Perto de sua casa, uma barreira de betão foi erguida em Julho pelas autoridades israelitas, depois de centenas de residentes dos Golã terem atravessado a cerca. “Foi na altura em que ouvimos os relatos dos massacres da comunidade drusa na província de Suwayda,” conta.
Yasser lembra-se de um outro massacre junto a esta vedação. “Em 2011, vimos os soldados israelitas matar várias pessoas durante um protesto do outro lado, sírios e palestinianos,” muitos deles refugiados a protestar pelo direito de regressar a casa, conta Yasser. Durante os protestos, 23 pessoas foram mortas, e centenas ficaram feridas.
Ali perto, Yasser leva-nos até uma colina conhecida como “monte dos gritos,” o local onde os residentes dos Golã ocupados se reuniam para comunicar com familiares e amigos do outro lado, antes de haver telemóveis ou internet. Para muitas famílias separadas, gritar ou usar megafones era a única forma de comunicação possível durante os primeiros anos da ocupação.
“Ficámos muito poucos depois de 1967, apenas alguns milhares,” conta Kanj Abu Saleh, enquanto cuida de um pequeno terreno a sul de Majdal Shams, onde plantou vinhas e macieiras. Como o rendimento da terra não é suficiente, trabalha também como ferreiro.
“A nossa pequena comunidade assumiu uma responsabilidade enorme: rejeitar os projectos da ocupação,” afirma.
Na adolescência, Yasser e Kanj juntaram-se a um grupo de jovens que resistia à ocupação israelita através de acções de desobediência e sabotagem. Foram presos e, como muitos outros habitantes do Golã, passaram vários anos em prisões israelitas.
Protestos contra a ocupação
Em 1981, os Montes Golã foram formalmente anexados por Israel, mas a anexação não foi reconhecida internacionalmente, com a excepção dos Estados Unidos. A União Europeia e as Nações Unidas continuam a considerar os Golã território sírio ocupado e anexado ilegalmente.
Em protesto contra a anexação, a comunidade síria anunciou uma greve geral, e rejeitou a cidadania israelita. Durante seis meses, fecharam lojas e escolas, pararam de pagar impostos e de trabalhar nos colonatos israelitas. Sem cidadania, a maioria dos residentes dos Golã tem apenas cartões de identidade que os identificam como residentes.
“Insistimos na nossa identidade síria, e mantivemos-nos ligados à terra e à agricultura,” explica Kanj, enquanto colhe uvas e maçãs que nos oferece. “Mas fomos esquecidos. Onde está a lei internacional? Fomos esquecidos no dia-a-dia, esquecidos no panorama estratégico mais vasto, esquecidos como causa.”
Para a investigadora Aram Abu Saleh, nascida em Majdal Shams, a condenação dos Montes Golã ao esquecimento deve-se, por um lado, ao facto de o território ter sido esvaziado pela ocupação israelita, e por outro, às características da população que lá vivia.
“A limpeza étnica dos Montes Golã foi sistemática. Foi a maior limpeza étnica na história do conflito até ao actual genocídio em Gaza. Antes de 1967, havia 130 mil residentes sírios. Só ficaram 7 mil em algumas aldeias isoladas no norte. Não é como na Cisjordânia, cheia de gente e de fricção diária com os colonos,” explica.
A organização de direitos humanos Marsad, com sede em Majdal Shams, documentou a destruição de 315 aldeias, quintas e comunidades sírias. Os sírios que conseguiram permanecer nos Golã e os seus descendentes são agora cerca de 29 mil pessoas, quase todas pertencentes à minoria drusa, um grupo religioso com presença sobretudo na Síria e no Líbano, e com pequenas comunidades na Galileia e na Jordânia. Apesar de representarem cerca de metade da população dos Golã, só possuem cerca de 5% do território, acrescenta Aram.
A sobrevivência da comunidade drusa nos Golã deve-se sobretudo ao facto de o exército israelita ter permitido que ficassem, supondo que aceitariam o domínio israelita à semelhança da maioria dos drusos na Galileia, que servem no exército israelita e se mostraram leais ao Estado de Israel.
Segundo Aram, o facto de a maior parte da população dos Golã pertencer a minorias marginalizadas dentro da Síria contribuiu para que o território tenha sido esquecido. “Trata-se de um território rural, uma zona historicamente negligenciada,” observa.
Aram recorda que os milhares de sírios que foram expulsos ou fugiram dos Golã são, ainda hoje, uma das populações mais marginalizadas na Síria. Mas um dos descendentes de deslocados chegou recentemente ao poder. Ahmed al-Sharaa, conhecido como Abu Mohammad al-Jolani (nome de guerra que remete para as origens nos Golã), liderou o grupo islamista que derrubou o regime sírio de Bashar al-Assad em Dezembro de 2024, e assumiu a presidência no início deste ano.
Instabilidade na Síria
Desde a queda do regime, Israel lançou centenas de ataques aéreos na Síria, e avançou a partir dos Montes Golã, ocupando mais território. O exército israelita estabeleceu novos postos de controlo, tem feito patrulhas e buscas, e disparado contra populações sírias numa zona anteriormente desmilitarizada, em violação do acordo de desengajamento assinado em 1974 entre os dois países.
Sob o pretexto de garantir que o novo governo sírio não representa uma ameaça a Israel, e invocando uma alegada preocupação com a segurança das minorias sob o novo governo islamista, as incursões do exército israelita têm ocorrido em paralelo a tentativas de estabelecer um acordo diplomático com pressão dos Estados Unidos.
Israel tem exigido a desmilitarização do sul da Síria e propôs a criação de um corredor entre os Golã ocupados e a província de Suwayda, habitada pela minoria drusa. Quanto aos Montes Golã, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu declarou que vão “fazer parte de Israel para a eternidade,” e, portanto, estão fora de qualquer acordo.
Para Kanj, Israel está a tentar apresentar-se como protector das comunidades drusas para explorar divisões sectárias e reforçar os seus próprios interesses na região. “Este jogo sectário serve directamente a ocupação. O sectarismo não é uma estratégia de libertação, só protege o secto, não protege a pátria. O principal problema continua a ser a ocupação,” afirma.
Com a instabilidade e os massacres da minoria drusa na Síria, cerca de mil drusos dos Golã pediram a cidadania israelita este ano, um número recorde. Segundo Aram, esta tendência não resulta de “amor por Israel, mas sim a um medo existencial” e insegurança.
Apesar do aumento recente, apenas cerca de 20% dos drusos dos Golã têm passaporte israelita. A maioria continua a rejeitar a cidadania, uma escolha que implica restrições de movimento e limita o acesso a direitos e serviços reservados aos cidadãos israelitas.
Para Yasser, as restrições de movimento são uma das principais razões pelas quais os jovens pedem cidadania. “Como é que um colono israelita – talvez até um assassino acabado de vir de Gaza – pode simplesmente pegar numa mala a viajar para onde quiser, enquanto nós, que acreditamos na justiça, que rejeitamos o derramamento de sangue, somos forçados a sofrer estas dificuldades?” questiona.
Não são apenas os soldados israelitas que circulam livremente. Enquanto os residentes sírios dos Golã têm dificuldade em viajar por não terem passaportes, os produtos dos territórios ocupados entram sem entraves nos mercados europeus.
Produção de vinho nos territórios ocupados
As vinhas cultivadas por colonos israelitas cobrem vastas áreas dos Golã. No território ocupado, a indústria vinícola expande-se e prospera : 23 adegas israelitas produzem cerca de sete milhões de garrafas de vinho por ano nas terras apropriadas das comunidades sírias expulsas.
Na última década, as exportações de vinho israelita duplicaram, atingindo os 57 milhões de euros anualmente. A adega dos Montes Golã [Golan Heights Winery] é um dos maiores exportadores israelitas de vinho.
Na União Europeia, os vinhos dos Golã são frequentemente vendidos como “produtos de Israel,” em violação do regulamento europeu que exige que os produtos dos colonatos israelitas sejam devidamente rotulados. Um relatório publicado em 2020 pela organização European Middle East Project (EuMEP) revelou que apenas 10% dos vinhos produzidos nos territórios ocupados se encontravam à venda com rótulos corretos. Os investigadores da EuMEP encontraram 72 vinhos dos Golã à venda em Portugal rotulados incorrectamente.
Apesar das condenações internacionais da ocupação israelita e das sistemáticas violações de direitos humanos que se intensificaram nos últimos dois anos, os vinhos dos Montes Golã continuam à venda em Portugal em lojas especializadas e online.
Nem a adega dos Montes Golã (Golan Heights Winery), nem a Autoridade Tributária e Aduaneira, nem as lojas que vendem vinhos dos Golã ocupados em Portugal responderam a pedidos de esclarecimento e comentário sobre a importação e rotulagem de produtos dos territórios ocupados.
“A ocultação da origem dos produtos é deliberada, acontece com a cumplicidade dos governos estrangeiros. Ao vender estes produtos, estão a apoiar a ocupação,” diz Nazeh Brik, investigador da organização de direitos humanos Marsad, que publicou um relatório sobre a indústria vinícola nos Golã ocupados.
“As autoridades europeias podiam suspender as importações [dos territórios ocupados], mas mesmo quando a lei exige que os produtos dos colonatos sejam devidamente rotulados, não é cumprida,” acrescenta. Em Setembro, a Comissão Europeia propôs suspender parte dos privilégio comerciais concedidos a Israel. Com a mediação de um cessar-fogo em Gaza, os planos de impor sanções foram suspensos.
A indústria do vinho israelita é relativamente recente. Em 1972, o professor Cornelius Ough, do Departamento de Viticultura e Enologia da Universidade da Califórnia, visitou os Golã ocupados e sugeriu que o solo vulcânico e a altitude da região seriam ideais para plantar vinhas. Em 1983, a adega Montes Golã, hoje uma das maiores empresas vinícolas israelitas, produziu os seus primeiros vinhos.
“Foi só nos anos 90 que Israel começou a ser conhecido pelo vinho,” diz o académico Ariel Handel, que estudou a indústria vinícola. “A adega dos Montes Golã ajudou a criar nova imagem da região – não como um território ocupado, um lugar de guerras e de sangue, mas como o lugar onde se produz vinho, onde se cria a ‘Europa em Israel’.”
Segundo Ariel, a indústria vinícola ajudou a normalizar a ocupação dos Golã. Este modelo de apropriação de territórios através do vinho foi tão bem sucedido que está a ser reproduzido na Cisjordânia, onde os colonos apropriam cada vez mais terras para plantar vinhas.
O crescimento desta indústria tem sido possível graças ao apoio estatal israelita, que concede benefícios fiscais e subsídios nos territórios ocupados, classificados como “áreas prioritárias.” Os colonos beneficiam de apoios do Ministério da Agricultura, da Indústria, e também do Turismo, que promove as adegas nos territórios ocupados como atracções turísticas. Segundo documentos divulgados pela associação Peace Now, a adega dos Montes Golã recebeu pelo menos três milhões de euros em apoios governamentais na última década.
Nazeh sublinha que os Golã são importantes para Israel não apenas do ponto de vista geoestratégico, por se tratar de um planalto elevado que permite observar os países vizinhos, mas também pela riqueza dos seus recursos naturais, especialmente a água.
“O problema da água não é só a apropriação de recursos, mas também as restrições que são impostas aos residentes sírios. Os agricultores judeus recebem entre 80 a 85 metros cúbicos de água por cada hectare, enquanto que nós só recebemos entre 25 a 30 metros cúbicos,” afirma. “Também há discriminação nos preços. Os colonos pagam muito menos pela água porque é fortemente subsidiada. Os agricultores sírios não recebem nenhum apoio.”
A única forma de resistência que Nazeh sente estar ao seu alcance é a documentação da limpeza étnica e a denúncia da discriminação sistemática nos Golã.
“Estas terras pertenciam a residentes que foram deslocados – foram esvaziadas dos seus habitantes, ocupadas, e exploradas,” diz. Nazeh mantém uma lista dos nomes árabes das aldeias destruídas, assim como os rios, vales e montanhas que foram renomeados em hebraico pelos colonos. “Quero que as gerações futuras saibam. É o nosso dever, e é o nosso direito registar tudo isto contra o apagamento.”
Esta reportagem recebeu apoio da fundação Investigative Journalism for Europe (IJ4EU)
https://www.publico.pt/2025/11/13/mundo/reportagem/ocupacao-esquecida-montes-gola-2153176